sábado, agosto 15, 2009

NATURAL

Ele era um homem feio. Não muito feio, mas longe de ser bonito. Apesar disso, tinha um trunfo secreto que ele mesmo desconhecia.
É muito difícil de explicar do que se tratava, mas podemos dizer que ele tinha um meio sorriso muito cativante. Desde pequeno, ele fazia, sem perceber. E, depois de ver aquele meio sorriso estampado em seu rosto, não havia como ficar encantado por ele. Era como se aquele sorriso fosse capaz de render a quem quer que seja e, então, a pessoa ficava como que magnetizada.
Algumas vezes, as pessoas mais inflexíveis que ele conhecia mudaram de opinião quando ele, sem querer, soltou um desses sorrisos, enquanto insistia por outra resposta...
Até que, já com seus 28 anos, numa conversa com sua namorada enquanto estavam vendo um álbum de fotos, ele perguntou:
- Meu benzinho, eu nunca fui alguém bonito. Como você começou a gostar de mim?
- Ah, acho que foi quando eu olhei o seu sorriso tímido... Eu não sei explicar, mas é um meio sorriso que te faz irresistível.
-Sorriso tímido?
- É um igual a este que está nessa foto...
Não deu muita importancia para aquela conversa. Mas, algum tempo depois, numa conversa com a mãe sobre amenidades, tocou nesse assunto despretenciosamente. Sua mãe então lhe disse:
- Ah, deve ser isso mesmo com certeza! Você tem um sorriso que dá um nó no coração da gente...
Com o passar do tempo, sempre que o assunto era o seu sorriso, ouvia respostas semelhantes. Aquilo começou a lhe chamar a atenção. Estava intrigado com o poder que as pessoas afirmavam que aquele sorriso lhe conferia.
Começou a pensar que fazia aquilo de forma não intencional, mas se conseguisse controlar aquele poder, teria uma arma muito poderosa sobre as pessoas.
Então resolveu que treinaria em frente ao espelho o meio sorriso daquela foto que sua namorada lhe mostrou, imitando a própria face naquela fotografia.
Ficou dias e dias nessa tentativa, sempre testando os resultados obtidos em situações da vida cotidiana, mas sem comentar seu intuito com ninguém, claro. Não conseguiu, porém alcançar nenhum resultado. Até que, no dia de seu aniversário, enquanto o primo tirou uma foto sua, conseguiu imitar perfeitamente o sorriso. Ao ver a foto, pensou vitorioso que conseguira o intento.
Começou a usar do sorriso a torto e direito, mas não percebia o efeito que as pessoas relatavam sobre o seu sorriso. Pensava que algo havia de errado: estava imitando-o perfeitamente, mas não obteve o poder irresistível esperado!
Até que, alguns meses depois, sua namorada pediu para romper o namoro. Ele, sem acreditar, perguntou:
- Mas o que aconteceu?
- Não sei... Acabou o encanto...
- Mas você não gosta mais de mim? Nem do meu sorriso?
- Ah... Sei lá! Parece que algo está diferente... Não consigo ver a mesma luz que eu via nas coisas, no seu sorriso, em você... Acho que é comigo... Adeus!
Sem entender direito o que estava acontecendo, apenas seguiu o impulso de cair no sofá e chorar. Chorar como um menino. Ligou a televisão para que ninguém escutasse seu choro. Ironicamente, passava uma entrevista sobre pintura, onde um especialista afirmava:
- É claro que este quadro é uma falsificação. Ele não chega nem aos pés da luz do original. Apesar da aparente perfeição, falta-lhe naturalidade...
A frase ecoou em sua cabeça por muitos minutos até que, meio tonto, adormeceu.

terça-feira, julho 28, 2009

O DIA DAS DEVAS

A fauna e a flora fazem festa.
A noite hoje na floresta é pra lavar a alma.
Leva o caos até a sala e deixa tudo pelo chão.
Docemente, faz do tecido, lembrança vã.
Amanhã, tem mais carnaval.

quarta-feira, julho 15, 2009

A VELHA FEITA DE ALECRIM

Ela tinha um lenço amarrado na cabeça.
E, eu acho que ela já nasceu com o cabelo grisalho...
O que ela mais gostava era de debulhar e comer romã.
Ou não.
Talvez gostasse mesmo de se perfumar, passar batom e se enfeitar.
Qualquer coisa, falava pra gente ir correndo a uma benzedeira.
Ela cantava músicas que ninguém lembra mais.
Pelo menos uma vez por ano ela defumava a casa com ramos diversos como arruda e alecrim.
Todo dia ela rezava, de manhã e de noite.
Ela picava couve como ninguém.
Se lembrava de tanta coisa e falava de um mundo mágico.
As mãos tremiam tanto...
Sua voz era tão calma e branda.
Seu sorriso era dos mais livres.
Tinha uma tesoura velha de baixo da cama: uma das suas simpatias...
Sua costura era motivo de orgulho.
Ela tinha um cheiro misto de café, erva-cidreira, arruda e alecrim.
E alecrim era a flor do campo que nasceu sem ser semeada...

terça-feira, julho 07, 2009

PENSAR

Pensar e me perder...
O coração nem quer saber...
O loop é infinito...
Eu não sei escolher...

segunda-feira, junho 29, 2009

SOBRINHO E TIA

Eu estava esperando o ônibus, sem esperar que outra surpresa pudesse ocorrer. Mas é quando menos esperamos que acontecem momentos mágicos de aprendizagem como este:
Sentaram-se os dois ao meu lado, tia e sobrinho, para esperar outro ônibus. Assim, foi impossível não ouvir a conversa deles:
- Você está fazendo a quinta séria pela segunda vez?
- Estou...
- Então você está repetindo de ano?
- Não, tia!
- Como não? Se você está estudando a mesma série pela segunda vez, está repetindo...
- Claro que não! Desta vez eu estou fazendo tudo diferente...

GRAÇA

Quando eu digo que te amo, é sério! Mas também é comédia...

terça-feira, junho 16, 2009

NOVA MARCHA


A alma está ligada!
O corpo segue junto...
E o coração dita os passos.
É por aqui!

segunda-feira, junho 08, 2009

LIGANDO DOIS LADOS

Quando eu via o menino que atravessava a ponte correndo, eu pensava que era medo.
Todo dia, ele acelerava o ritmo da caminhada para passar pela ponte e depois voltava à cadência anterior de seus passos.
Um dia, esperei que ele atravessasse a ponte e perguntei:
- Você tem medo de cair da ponte?
- Eu não! Disse-me convícto.
- Então porque você corre para atravessá-la?
- Por que eu não quero ser igual ao vizinho...
- E seu vizinho acaso se demora quando passa sobre a ponte?
- Não é isso! É que não quero abusar da pobre ponte. Então passo o mais rápido que posso, para ela aguentar meu peso o menor tempo possível...
- E por que isso o faz diferente de seu vizinho?
- Como não seria assim! Pois minha mãe diz que ele incomoda muito a vida de todos. Ela diz que, para chegar aonde quer, ele não se importa de abusar dos outros e passar por cima! Se eu tiver que fazer isso, que incomede o menos possível, não é verdade?
Foi aí que me calei, pensando no meu julgamento precipitado e no que o menino me ensinou...

sábado, junho 06, 2009

PRA QUÊ PALAVRAS?

Só existe uma imagem pra me deixar leve.
Apenas um caminho me deixa sereno.
Por isso, calma para seguir em frente.
Passo a passo calculado.
Razão à flor da emoção.
Esse é o escudo:
Nosso amor é um caso sério...
Quem irá nos ofender?
É, minha cara!
Não é no barulho que lhe faço oferendas.
É no silêncio, é na omissão, é no sussuro
que eu mostro o teu valor.
Que não precisa das palavras pra definir,
nem pra defender, o que é indizível.
Que o presente sou eu, seu.
Só seu!

quarta-feira, junho 03, 2009

FALANDO SÉRIO

Amanhã, o palhaço vai tirar a fantasia pra trabalhar.
Vai guardar na gaveta a peruca, o nariz vermelho, o sapato grandão, a barriga postiça...
Mais vai ter muito mais alegria.
Amanhã o palhaço será médico.
Médico da própria alma!

ACUPUNTURA

Algumas coisas que seriam para ferir,
me deixam bem melhor a cada dia...

DESCERRAR O VÉU

Quando um raio de Sol pousar na sua fronte,
você também verá o mundo se encher de graça e cor.
Quando você deixar que o ar entre em seus pulmões,
vai sentir que andou tanto tempo buscando em vão outras aspirações.
Quando suas pálpebras se descerrarem na manhã,
descobrirá que o mundo vai além de tuas verdades.
E se isso acontecer comigo também,
os GRANDE AMIGOS estarão satisfeitos!

terça-feira, junho 02, 2009

300


Trezentas vezes eu disse...
Trezentas vezes te ouvi dizer...
Trezentos suspiros meu espírito exalou...
Trezentos pássaros liláses pousaram em meu ombro, pela manhã.
Passeei por trezentas nuvens carregado por trezentas borboletas, como se eu fosse um girassol de trezentas pétalas...
Trezentas imagens valem mais que trezentas mil palavras... Ou não...
Trezentos segredos eu te contei, ao pé do ouvido, publicamente, pra todo mundo ver.
Inventei trezentas mentiras que viraram verdades...
Confessei trezentas verdades que viraram mentiras...
Trezentos ataques que vieram de repente me fizeram perder o juizo em meio à multidão que talvez nem me via...
E o amanhã, eu creio, virá!