domingo, novembro 01, 2009

A PAZ

Branca. Alva. Clara.

Preta. Negra. Escura.

Multicor. Aqui...

O PREÇO

Ela era uma prostituta. E sem pudor. Dizia: "Sou e é é isso!". Fazia 12 anos que ganhava a vida assim. Vida fácil? Não. Mas seguia em frente.

Até que conheceu Roberto. Conheceu-o na cama, como os outros. E, como os outros, realizou suas fantasias. E, como os outros, olhou dentro dos olhos o tempo todo mas, ao fechar a porta, nem se lembrava mas do rosto dele.

Não foi o mesmo que aconteceu a Roberto. Ele ficou com ela na cabeça toda a semana. E voltou lá na semana seguinte. Falou que não conseguiu esquecê-la. Ela riu. Ele completou:

- Você não acredita, né? Mas você mexeu com minha cabeça... Vem cá!

Roberto ainda não sabia, mas ela realmente estava mexendo muito com sua cabeça. Tanto que ele voltou lá três dias depois, no mesmo horário, às 18:00h. E, na sequência, passou a ir encontrá-la quase todos os dias após sair do trabalho.

No início ela se gabou: "Consegui conquistar o cliente...". Mas depois começou a ficar assustada com o aumento da frequência daquele freguês. "Acho que ele se empolgou demais...".

Um mês depois, Roberto fez a proposta:

- Casamento? Me tirar dessa vida? Quem você pensa que é? E com quem você pensa que está falando?

- Eu sei que você também gosta de mim. Sei pelo jeito que você me olha...

- Eu faço isso com todos. É só uma forma de levar os homens à loucura. E deixá-los satisfeitos, pensando que têm algum poder...

- Então vamos ver se eu não tenho razão... Você tem duas semanas pra pensar.

Quando ele saiu e fechou a porta ela riu e pensou: "Esse pirou de vez". Mas passou a noite pensando em tudo que ouvira. Pensando nele. No outro dia, ele também não saia de sua cabeça. Ficou ansiosa para chegar às seis da tarde. "Talvez Roberto tivesse razão e eu esteja apaixonada", começou a pensar. "Ah, nada disso! Eu? Apaixonada? Bobagem...". O riso que se seguiu foi entre o desprezo e o desespero.

Quando ele chegou, tratou-o com uma indiferença forçada. E tentou fazer como sempre fez. Porém, nos dias que se seguiram, pensava mais e mais nele. Um dia antes do término do prazo, falou com ele:

- Aceito o casamento, mas não quero deixar de ser o que sou.

- Por que? Você não vai precisar continuar a...

- Ou isso ou nada feito - disse cortanto o argumento dele.

- Tudo bem...

Casaram-se. Na lua-de-mel, ela disparou ante uma investida dele:

- Pode parar! Não faço sexo sem pagamento...

- Mas você é minha mulher...

- Meu amor é seu, mas o sexo só com pagamento...

Ele olhou-a sem acreditar... Riu desesperado, aguardando ela falar que era brincadeira. Mas ela apenas olhou-o séria.

Ele olhou-a nos olhos por um tempo e mudou de expressão: de surpreso a magoado. Balançou a cabeça em negativa, pegou a mala e saiu do quarto, batendo a porta. Ela ficou imóvel. Estava desfeito o casamento.

Nove meses depois, ela tinha acabado de chegar no velho quarto onde a história começou quando recebeu um recado: já havia um cliente esperando por ela.

Roberto entrou pela porta do velho quarto. Jogou um bolo de dinheiro nela e ordenou:

- Deita na cama!

Ela apenas cumpriu a ordem, calada. Após terminar, ele vestiu sua roupa e, sem dizer palavra, foi embora. Essa cena se repetiu, não de vez em quando, mas todos os dias.

sexta-feira, outubro 30, 2009

PEQUENA LIÇÃO

Passo a passo ela vai.

Com calma e tenência.

Ela sabe da cadência,

que é preciso ter

pra seguir em frente.

Obrigado pelo ensino,

minha amiga centopeia.

domingo, outubro 18, 2009

COTIDIANO

Ele saiu de casa, apenas com as chaves na mão e o dinheiro da passagem. Assoviava uma canção antiga e andava como quem está contente. Na verdade, estava na expectativa da ligação que ele receberia mais à noite de sua irmã.

Quando viu um cachorro deitado na calçada de sua casa foi em sua direção. Aproximou-se dele, chutou a sua barriga e esbravejou:

- Saia daqui, seu pulguento maldito!!!

Foi trabalhar. Era Garçom num restaurante barato. Como de costume, antes de sair da cozinha cupiu no prato daquele freguês velho e chato que comia ali quase todo dia no mesmo horário. Talvez foi a melhor coisa que lhe aconteceu no dia...

Ao voltar pra casa, teve que ignorar mais uma vez o "boa noite" do motorista de ônibus, mas conseguiu uma pequena satisfação: ver o trupicão de uma menininha de 5 anos que subiu no ônibus de mãos dadas com a mãe.

Chegou em casa e ficou andando de um lado para o outro, de olho no relógio. Até que o telefone tocou. Atendeu apressado o telefone e foi logo dizendo:

- E aí?

-...

- Passou?

-...

- Parabéns! Então agora terei uma irmã médica?

- ...

- Eu imagino. Vestibular é um saco, mas você conseguiu. Agora vê se estuda, viu? Já contou pra todo mundo?

-...

-Então desliga e vai ligar!

-...

-Tchau.

Sentou no sofá, ligou o rádio, suspirou e deu um sorriso de canto de boca, batendo o pé ao ritmo da música calma que tocava...

OLHOS E DENTES

Talião, Talião.

Teu tempo já se esgotou.

Mas, às vezes, as pedras

insistem em resistir

à força do tempo.

E a torcida do meu coração

é pela derrota breve e suave.

SINTÉTICO

Se eu conseguisse dizer

em poucas palavras

os fatos dessa minha renovação,

ou seria incompleto,

ou seria mágico!!!

quarta-feira, setembro 30, 2009

NIGÉRIO

Se o céu fica negro,

o breu se instala ao redor,

a chama da vela treme

e implora um pouco mais

da própria luz de volta pra si.

sábado, setembro 19, 2009

(DES)GOSTO

Acho que hoje minha língua tocou a própria alma.

E percebeu que havia ali um poço de um líquido claro,

leve, frio, e amargo...

domingo, setembro 13, 2009

DIGA ADEUS...

Frase que não devo escutar mais, porque a novela acabou e o trocadilho caiu de moda:

"Are barba!"

terça-feira, setembro 08, 2009

ANAGRÁVITO

Se os sonhos são leves,

os hinos são sonoros,

as luzes tão cândidas,

os perfumes os mais finos,

o coração tranquilo,

a vida pode ter sabor qualquer

que os lábios vão gostar!

sábado, agosto 29, 2009

SIRILUIA


Leveza e força numa revoada...

Uma chuva que vem do chão e vai para os céus!

Pequenas vidas com asas, enxarcando o ar.

Me lembro, quando criança, entender,

que aquele era um dia raro, único e belo.

E eu exclamava: "Aleluias!"

E um amigo meu: "Siriris!"

quarta-feira, agosto 26, 2009

RUINAS URBANAS

A cidade é suja, feia e fede.

O mendigo é engolido pela publicidade e pichachões.

A fumaça estampa o cinza nas marquizes.

O lixo fica ali mesmo, no chão.

Os semáforos negros se alinham com fios de alta tensão.

Os prédios abandonados e velhos ficam esquecidos.

Quando atravesso na faixa, noto uma pausa no barulho

como se fosse um minuto de silêncio por algo que ficou perdido.

sábado, agosto 15, 2009

NATURAL

Ele era um homem feio. Não muito feio, mas longe de ser bonito. Apesar disso, tinha um trunfo secreto que ele mesmo desconhecia.
É muito difícil de explicar do que se tratava, mas podemos dizer que ele tinha um meio sorriso muito cativante. Desde pequeno, ele fazia, sem perceber. E, depois de ver aquele meio sorriso estampado em seu rosto, não havia como ficar encantado por ele. Era como se aquele sorriso fosse capaz de render a quem quer que seja e, então, a pessoa ficava como que magnetizada.
Algumas vezes, as pessoas mais inflexíveis que ele conhecia mudaram de opinião quando ele, sem querer, soltou um desses sorrisos, enquanto insistia por outra resposta...
Até que, já com seus 28 anos, numa conversa com sua namorada enquanto estavam vendo um álbum de fotos, ele perguntou:
- Meu benzinho, eu nunca fui alguém bonito. Como você começou a gostar de mim?
- Ah, acho que foi quando eu olhei o seu sorriso tímido... Eu não sei explicar, mas é um meio sorriso que te faz irresistível.
-Sorriso tímido?
- É um igual a este que está nessa foto...
Não deu muita importancia para aquela conversa. Mas, algum tempo depois, numa conversa com a mãe sobre amenidades, tocou nesse assunto despretenciosamente. Sua mãe então lhe disse:
- Ah, deve ser isso mesmo com certeza! Você tem um sorriso que dá um nó no coração da gente...
Com o passar do tempo, sempre que o assunto era o seu sorriso, ouvia respostas semelhantes. Aquilo começou a lhe chamar a atenção. Estava intrigado com o poder que as pessoas afirmavam que aquele sorriso lhe conferia.
Começou a pensar que fazia aquilo de forma não intencional, mas se conseguisse controlar aquele poder, teria uma arma muito poderosa sobre as pessoas.
Então resolveu que treinaria em frente ao espelho o meio sorriso daquela foto que sua namorada lhe mostrou, imitando a própria face naquela fotografia.
Ficou dias e dias nessa tentativa, sempre testando os resultados obtidos em situações da vida cotidiana, mas sem comentar seu intuito com ninguém, claro. Não conseguiu, porém alcançar nenhum resultado. Até que, no dia de seu aniversário, enquanto o primo tirou uma foto sua, conseguiu imitar perfeitamente o sorriso. Ao ver a foto, pensou vitorioso que conseguira o intento.
Começou a usar do sorriso a torto e direito, mas não percebia o efeito que as pessoas relatavam sobre o seu sorriso. Pensava que algo havia de errado: estava imitando-o perfeitamente, mas não obteve o poder irresistível esperado!
Até que, alguns meses depois, sua namorada pediu para romper o namoro. Ele, sem acreditar, perguntou:
- Mas o que aconteceu?
- Não sei... Acabou o encanto...
- Mas você não gosta mais de mim? Nem do meu sorriso?
- Ah... Sei lá! Parece que algo está diferente... Não consigo ver a mesma luz que eu via nas coisas, no seu sorriso, em você... Acho que é comigo... Adeus!
Sem entender direito o que estava acontecendo, apenas seguiu o impulso de cair no sofá e chorar. Chorar como um menino. Ligou a televisão para que ninguém escutasse seu choro. Ironicamente, passava uma entrevista sobre pintura, onde um especialista afirmava:
- É claro que este quadro é uma falsificação. Ele não chega nem aos pés da luz do original. Apesar da aparente perfeição, falta-lhe naturalidade...
A frase ecoou em sua cabeça por muitos minutos até que, meio tonto, adormeceu.