domingo, junho 10, 2012

AS DUAS, AS TRÊS

Clara e eu éramos como unha e carne desde a infância. Vivíamos juntas, éramos conselheiras uma da outra, cuidávamos uma da outra, brigávamos e fazíamos tudo como se fôssemos duas irmãs que muito se gostavam. E só não éramos uma dupla inseparável porque éramos três.

Mariana estava sempre junto de nós. Mas, ao contrário de Clara e eu, Mariana era muito tímida e, perto do nosso vigor juvenil, ela era uma figura apagada. Mariana tinha um jeito frágil e era uma moça de poucas palavras. Mas, nas poucas vezes em que ela externava suas opiniões, dizia sempre algo sensato e admirável. Ela era o contrapeso de toda a impulsividade do mundo que governava eu e Clara. Apesar de eu admirar Mariana e sua sensatez, eu às vezes dizia que não era assim. E até dizia que ela era certinha demais, principalmente quando Clara estava dando muita atenção para ela e se esquecendo de mim. Há quem julgará nessa ação a expressão de um ciúmes bobo, numa competição pela atenção de uma amiga. Mas eu também já percebi Clara fazendo o mesmo quando era eu quem estava dedicando mais atenção à Mariana e isso prova que nós duas sabíamos que a amizade uma da outra era a mais importante.

Clara, ao contrário de Mariana, sempre foi muito extrovertida, bem humorada, meio espivetada, muito bonita e também bem inteligente. Nós duas combinávamos muito porque éramos parecidas. E era por isso que eu contava todos os meus segredos para Clara. Para Mariana, quase todos. E eu sabia que Clara fazia o mesmo. Quando Clara passou no vestibular para Pedagogia, fui eu quem recebi e dei o primeiro abraço. Mas Mariana estava lá do lado.

Noutra ocasião, foi a vez de Mariana receber também uma boa notícia: conseguiu passar no vestibular para Medicina numa universidade federal em outro estado. O trio se separaria pela primeira vez.

Na despedida, um misto de alegria pelo sucesso dela e tristeza por ter ela partir. Por dentro, confesso, agradeci a Deus que era Mariana quem estava indo embora e não Clara: dos males, o menor. Clara, depois, me confessou que pensou o mesmo.

Contudo, depois de algumas semanas, minha amizade com Clara começou a ficar diferente: tínhamos todo o tempo do mundo pra sermos mais que nunca unha e carne, não havia mais ninguém com quem dividir nossa atenção, mas faltava alguma coisa... Hoje eu sei que a gente sentia falta dos ciúmes que Mariana despertava em nós duas. Gostávamos daquele desafio velado de ter que conquistar o que estava sendo disputado: a atenção da amiga. Esse ciúmes dava graça à nossa amizade. Era Mariana que fazia Clara e eu sermos tão boas amigas.

Mais ou menos nove meses depois que Mariana estava longe da gente, ela veio para nossa cidade visitar os pais num feriado prolongado e marcamos de nos encontrar: o trio estaria junto outra vez. Neste meio tempo, cada uma havia seguido um caminho diferente e praticamente não nos falávamos. Porém, naquela tarde do encontro do trio, parecia que tudo havia voltado ao que era antes: Clara era de novo a minha melhor amiga de tempos atrás. Mariana também era a mesma e continuava sendo motivo de ciúmes das amigas.

No fim daquele dia, ao me despedir de Mariana, abracei-a e disse próximo ao seu ouvido: "Obrigada por trazer minha melhor amiga de volta". Ela sorriu e me disse: "De nada...". Naquele instante vi em seus olhos que ela sempre percebeu o que ela significava para mim e para Clara, mas que ela não se sentia menor por isso. Ao contrário: se doava em prol da felicidade das duas amigas.

Hoje eu penso que estive enganada esse tempo todo: talvez tenha sido Mariana, e não Clara, a minha melhor amiga.

domingo, abril 29, 2012

GODICÓ

Tentei escrever um verso simpático e novo.
Um novo código, uma nova forma de dizer o óbvio.
Coloquei aqui uma mensagem pra você desvendar:

Dana texise de tocrese breso meu çãoraco corilí

domingo, abril 15, 2012

UM JOVEM PINTOR

Salpicar as cores numa tela branca e ver a paz virar festa, e o nada virar alegria. Essa era a profissão daquele jovem recém formado. Muita gente admirada com seu talento e seu futuro promissor e ele apenas vivendo a vida a cada momento.

Naquele dia, ele estava sentado naquela mesa de bar, olhava ao redor a movimentação das pessoas enquanto tomava sua cerveja. Aquelas cores, luz e sombra, tudo talvez numa beleza jamais vista.

Até que seus olhos se cruzaram com outros. Olhos que sopravam levemente um desejo de um furacão. Ele recebeu um sorriso. E como não corresponder? Mais luz surgiu naquele instante e as cores se tornaram mais vivas. O jovem pintor resolveu se aproximar e ser gentil. Quem sabe?

Ao chegar na outra mesa, o homem sentado sorriu novamente e lhe convidou para sentar. Perguntou o seu nome, sobre sua vida e desataram numa conversa que parecia sem fim. Trocaram telefone e cada um foi para sua casa. No dia seguinte, o jovem pintor esperou ansiosamente a ligação daquele senhor, um grande arquiteto, mas não recebeu nada. Nem uma mensagem. Dois dias depois, quando o jovem nem esperava mais algum contato, o telefone tocou.

Os dois se encontraram mais algumas vezes, se apaixonaram perdidamente um pelo outro, e decidiram morar juntos. Mas havia uma condição: o arquiteto exigia que o jovem abandonasse a pintura. "Homem meu não trabalha!".

O jovem ficou estático e incrédulo diante da exigência. Trocaria sua realização por um amor? Havia uma medida que conseguisse comparar o que era mais importante? Seria feliz qualquer que fosse sua escolha ou seria sempre incompleto por abdicar de algo?

Deu sua resposta ao arquiteto e foi comprar suas tintas e uma nova tela. Nos próximos 5 dias pintou num frenesi sem igual. Como sempre, uma tela abstrata, com traços fortes. Mas a combinação de cores que fez era única: conseguiu mesclar alegria, raiva e melancolia como nenhum quadro seu jamais tivera. Muitos críticos disseram ser aquela sua obra prima. A mais complexa, a mais emocionada, a mais emocionante. O último quadro antes dele, inexplicavelmente, largar a carreira de pintor.

quinta-feira, abril 12, 2012

MENSAGEM PARA VOCÊ

Abri as suas letras
para ler em meio à madrugada.
Há tempos não me sentia assim.
Sou quente outra vez.

Amiga distante,
que me parece ao lado,
um grito mudo,
seria saudades?

Um sussurro ávido.
Com certeza,
permanece a amizade.

domingo, abril 08, 2012

NA RUA

Um cachorro latia lá fora. Já era tarde e ele procurava encontrar algo pela rua que nem ele sabia ao certo o que.

Estava bêbado, como de costume. E ele bebia para que a tontura lhe acalmasse, como se fosse uma mãe embalando o berço de um bebê que não sabia como chorar. Às vezes, ele olhava para a lua, como se ela pudesse ouvir o que se passava em seu coração e contar pra ele, de forma que ele pudesse entender melhor o que sentia.

Resolveu que era melhor dormir. Procurou um pedaço de papelão que pudesse lhe aquecer e amaciar a dureza do chão e da noite ao relento. Escondeu-se sob uma marquise numa rua não muito movimentada. Tinha medo de lhe baterem de novo apenas por dormir na rua. Encontrou um saco de lixo para lhe servir de travesseiro e, com outro papelão, se cobriu. Dormiu rápido, mas não sonhou. Há muito não sonhava.

Pela manhã, acordou cedo, com medo do dono da marquise lhe fazer algo de ruim. Andando pelas ruas, chegou o barzinho que ele sempre frequentava a porta pela manhã. O dono não se importava com ele sentado lá, na calçada em frente ao bar, pedindo esmola. Muitos clientes também não se importavam com ele lá também. Talvez o mundo inteiro não se importasse.

Com sua mão estendida a espera de qualquer moeda, tinha um olhar perdido no infinito. Às vezes, para passar o tempo, brincava de imaginar o que poderia querer dizer aquelas letras que ele via espalhadas pela cidades em placas, cartazes e páginas de jornais. Mas, finalmente, era chamado à realidade, quando sentia o peso de uma moeda sobre a palma de sua mão. Agradecia com a cabeça num gesto mudo. Fazia muito tempo que era um homem de poucas palavras. Falar lhe doía como se lhe cravassem um punhal na garganta.

Quando começou a sentir o cheiro da comida alheia sendo preparada, decidiu que era hora de contar o que havia recebido e comprar alguma coisa pra comer. Como em quase todos os dias, percebeu que não havia o suficiente para pagar o almoço. Foi então à procura de um saco de lixo qualquer. Rasgou-lhe, revirou-lhe o conteúdo e percebeu que ali nada havia para ele. No terceiro saco de lixo rasgado, encontrou um pouco de arroz. Maquinalmente, encheu sua mão e levou à boca. Engolia com gana aquela que seria sua única refeição do dia. Depois voltou ao bar e entregou todo o dinheiro que recebeu em troca de um copo de cachaça. Sorveu o líquido para tirar o gosto azedo da boca e o amargo dos dias.

Quando o sol estava quente pela tarde, foi à fonte da praça e resolveu se banhar, para abrandar a coceira de dias sem asseio. Completamente nu, esfregava sua mão contra a pele, deixando a água da fonte com uma cor escura. De repente, percebeu que um guarda gritava com ele para que dali saísse. Vestiu seu short e a camiseta ainda com o corpo molhado e saiu dali para evitar confusão.

Andou sem rumo pela tarde. Ficou num banco de um parque até ser novamente expulso por outro guarda. Caminhou novamente a esmo. Encontrou algumas outras pessoas que também moravam na rua debaixo de uma ponte e conseguiu um pouco mais de cachaça. Bebeu para tentar apagar a sua memória.

Mais uma vez anoiteceu, mas debaixo daquela ponte não havia espaço para ele. Eram muitos ali. Resolveu perambular pela cidade, mais uma vez, procurando sabe-se lá o que. Essa noite estava muito mais fria. Pegou um caixote velho que encontrou na rua pensando em fazer uma fogueira para se aquecer. Quando bateu a mão no bolso do short em busca da caixa de fósforo que havia comprado para essas ocasiões com o dinheiro de esmolas, encontrou a caixa vazia.

Ainda bêbado, decidiu que apenas deitaria em cima de um papelão e se cobriria com outro, como na noite passada. Amanheceu sem vida, vítima da noite mais fria do ano.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Não havia um título.

Não havia ninguém ao redor.
Ou melhor, havia um mundo ao redor.
E talvez isso era o que mais incomodava.
Não havia solidão completa.
Nem companhia que se aproximasse o bastante.

Em poucos segundos, ele tinha certeza:
o pior castigo era viver
dia após dia
com aquele gosto na boca
que resumia
o pior da eternidade no Paraíso
(descanse - se puder - em paz)
e a agonia de uns instantes no Inferno.

domingo, dezembro 04, 2011

ENVELOPE BRANCO



Ela estava andando pelo parque quando resolveu sentar-se em um banco para descansar um pouco e observar aquele espaço com calma.

Antes de sentar-se ali, observou o assento e notou que havia um envelope branco ali. O que haveria dentro dele? De quem seria? Resolveu abri-lo para decidir o que fazer com tal achado. Dentro encontrou um pequeno pedaço de papel preso por um clipe a um bilhete de loteria. No pequeno papel, era possível ler: "Este é um bilhete premiado. Receba-o como um presente, mas lembre-se de fazer um bem a mais alguém para não deixar essa ideia morrer."

Ela olhou bem para aquele bilhete e deu uma longa risada. Não podia acreditar naquilo. Porque alguém abandonaria um bilhete premiado no banco de um parque presenteando um estranho qualquer? Seria ela tão sortuda assim de encontrar algo tão bom que ela nem estava procurando?

Ela tinha certeza que aquele envelope não passava de uma brincadeira sem graça e até olhou para o lado para ver se conseguia enxergar alguém que deveria estar observando a sua reação e se divertindo as suas custas. Não viu ninguém, entretanto, conhecedora da capacidade das pessoas desse nosso mundo, rasgou aquele bilhete e jogou na lixeira ao lado.

Foi embora para casa e ao assistir o noticiário local, viu uma reportagem que dizia que o único ganhador do prêmio da loteria ainda não havia buscado o prêmio. Ficou atônita quando o repórter confirmou que o ganhador era da mesma cidade em que ela morava. Não teve coragem de contar a história para seu filho que chegou logo depois da aula.

Ele, um rapaz de 17 anos muito inteligente esforçado e sensível, logo percebeu que a mãe estava perturbada com algo. Ele perguntou o que havia acontecido, mas ela desconversou.

No outro dia, logo cedo, ela voltou ao parque procurando o tal bilhete na lixeira, mas não o encontrou. Não acreditou que havia literalmente jogado sua sorte no lixo. Chorou muito arrependida de ter desconfiado que alguém seria capaz de ter tal atitude. Afinal, aquilo parecia se tratar de uma espécie de corrente que pedia que a pessoa beneficiada apenas levasse algo de bom adiante.

Quando chegou em casa, resolveu que contaria a história ao filho. Sentou-se no sofá e viu que o tal ganhador do prêmio havia buscado o prêmio. O repórter informou que a demora em buscar o prêmio foi justificada porque o vencedor demorou a encontrar o bilhete premiado que estava guardado em seu armário.

domingo, novembro 27, 2011

NESTA ALTURA DA LEITURA


A que ponto cheguei?
(.?!,;:...)

sexta-feira, outubro 28, 2011

AMIGA INTRUSA


O meu eu lírico quer te enganar.
O meu eu profundo te distrair.
O meu eu artista vai te revelar.
E eu mesmo nem vou perceber.

Ela era aquela idosa de sempre.
Senhora Agonia que se acostumou
a morar nos meus desalentos
como intrusa por quem se tem
o mais caro e sincero apreço.

quarta-feira, outubro 05, 2011

PREPOSIÇÃO


Esse meu balanço, vai e vem...
Esse coisa morna, cinza e paz...
Grades na janela, abre e fecha...
Umas letras tortas, filho e pai...

Arroz com feijão, pra variar.
Desce a tirolesa que é mais seguro!

O rio morto, seco e salgado.
Minha veia aberta, sístole e diástole...
Olhos já tão cegos e secos depois.

Uma lira dita, nunca e jamais...

sexta-feira, setembro 16, 2011

QUANDO A CASA CAIU


Naquela época, ele construiu uma casa com casca de ovos. Era, talvez, a casa mais bonita das redondezas e a mais exótica, já que todos preferiam construir a suas usando vidro e algodão. A pintura interna foi feita utilizando as gemas enquanto o verniz externo era feito de claras de ovos.

Viveu feliz doze anos naquela casa com sua única filha, mesmo tendo que superar a morta de esposa durante o parto.

Por um capricho do destino, a filha ficou muito doente e também faleceu, fazendo com que o homem não enxergasse mais sentido em viver naquela casa. Porém, havia prometido para a filha durante uma piora em seu quadro que não choraria com sua morte, mas que faria algo para encher, não só a ele, mas outras pessoas de felicidade. Para resolver seu problema e cumprir a promessa que fizera a filha, resolveu destruir a casa. Como? Chamou os amigos mais queridos e deu uma festa.

Todos pulando e dançando ao som de músicas animadas foram pisando nas cascas de ovos do chão e das paredes fazendo um festival de partículas brancas cair e enfeitar por alguns instantes o ar. Foi uma cena realmente memorável para todos e a destruição mais feliz de uma casa que alguém já teve notícias. E é por isso que as casas de hoje são construídas para serem destruídas!

segunda-feira, setembro 12, 2011

AQUELA CASA DE SAL


Uma formiga construindo a Torre Eiffel!
Velocidade qual?
Gotejava minha parca persistência...

Lentamente, a paisagem muda.
Aquela montanha vira planície.
O vulcão violento se extingue.
Célula a célula, a ferida fecha.

Devagar, de tanto vagar,
o caminho encontrou meus pés.

Eu procurava a luz, sem encontrar.
Eu queria um sol fúlgido que ofusca.
Mas era preciso o intermitente vaga-lume.

segunda-feira, setembro 05, 2011

UM INSTANTE DE REVELAÇÃO

Conheci o Beto numa festa. Ele era simplesmente o homem mais lindo que eu tinha visto na minha vida. Sei lá o que deu na minha cabeça, mas eu precisava me aproximar dele de alguma forma. Era algo que eu não entendia bem, a influência que ele tinha sobre mim.

E logo eu, você muito bem sabe, que nunca fui uma mulher romântica. Sempre fui muito prática. Alguns homens até se assustavam, enquanto outros se apaixonavam com meu jeito de ser decidida e prática. O Otávio, por exemplo. Ele me encontrou numa boate e puxou papo comigo, mas nunca esperava ouvir minha resposta firme:

- Que tal você parar de rodeios com perguntas sobre mim e partir logo para o que interessa? Você quer sexo, não é? Eu também! Vamos sair logo daqui?

Posso me lembrar da cara dele de espanto. Quando completamos um ano de namoro, ele me confessou que realmente naquela noite ele só queria sexo, mas quando ele ouviu aquela minha resposta caiu perdidamente apaixonado por mim. E eu tive que confessar que, mesmo um ano depois, o que eu mais queria com ele ainda era sexo mesmo...

Nunca me considerei uma sacana. Longe disso. Eu sempre respeitei homens compromissados, por exemplo, mas com o Beto não deu. Ouvi um amigo brincando sobre a nova namoradinha dele e fiz que não sabia. Como de costume, usei todo meu charme e fugi com ele da festa. Nos amamos no carro dele como loucos, num sexo selvagem e gostoso. Eu nunca quis amor.

Quando você me chamou pra sair hoje, Lucas, fiquei super feliz de poder botar o papo em dia, após três meses distantes um do outro. Afinal somos melhores amigos, né? Só nunca iria imaginar que a namorada do Beto era você, homem de Deus! Quando eu vi você chegar de mãos dadas com ele eu não pude acreditar em tamanha coincidência. Enfim, ele já está voltando do banheiro. Pense o que quiser, faça o que quiser. Eu só precisava te contar isso...