
Me espancaram hoje de manhã. Nove rapazes batiam em mim, enquanto eu gritava de dor. Socos na face, chutes nnos rins, pauladas na cabeça, até eu desmaiar e sangrar tingindo o chão. Pontapés ainda recebi, mesmo desacordado. Por fim, cuspiram em mim, gritaram, xingaram, rasgaram minhas roupas. Riram-se bastante, fartos, não mais sedentos. Jogaram meu corpo inerte em meio ao lixo da calçada. E se foram calmos, assoviando. No hospital, aprendi a ver minhas cicatrizes.
Me sequestraram ano passado. Me tiraram a dignidade, uma parte do meu tempo, da minha vida. Me trancaram num banheiro pequeno, sujo e escuro, sem água nem comida. Me lembro ainda do medo que senti. No final, sairam impunes, andando pelas ruas da cidade. No escuro, aprendi a não querer ver tudo.
Me mataram há cinco minutos. Cortaram minha garganta com uma faca meio cega. Requinte de crueldade. Debocharam do meu urro de dor. E jogaram meu corpo num lote vago. Aprendi a não querer viver para sempre.
Me estupraram há três semanas.Em plena luz do dia. Numa rua sem saída e deserta. Me sinto um bicho sujo e vadio. Doente, dolorido e sombrio.
E eu ainda pretendo ficar de pé.