domingo, janeiro 05, 2014

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sábado, dezembro 07, 2013

RODO COTIDIANO

Ele tem um rodo
que faz clarear o dia
quando minha mente
está toda anuviada.

Ele, de pronto, consegue,
num gesto apenas,
fazer meus olhos choverem
pra eu ter um pouco
de luz calma do sol.

O rodo dele me puxa pra perto
e empurra as núvens
pra bem longe
do céu acima de mim.

O rodo que ele tem
se chama amor.

O OUTRO

Ele não queria ver o óbvio e eu não sabia mais o que fazer pra lhe abrir os olhos. Ele fazia questão de enxergar tons monocromáticos como uma enxurrada de arco-íris. Fazia questão de ignorar o peso da gravidade que prende nossos corpos no chão.

Mesmo antes disso tudo, quando andávamos nos rudes campos do lugar em que nascemos, ele não conseguia perceber o perigo dos espinhos das flores campestres. Tudo pra ele era um porto pronto pra nos abrigar.

Ele acreditava demais, até na semente que plantamos no campo e que corria o risco de morrer sem nos alimentar.

Agora pouco estávamos ali, só nós dois, com o vão acima da gente, ninguém por perto pra nos ajudar. A água em volta dos nossos corpos nos sufocava e o vendaval que vinha de cima anunciava que a tempestade que se aproximava nos mataria afogados se não saíssemos dali. A saída estava muito lá em cima, inalcançável, e nós condenados por nos encontrarmos no fundo do poço.

Aquele era nosso triste cárcere, mas ele não queria isso enxergar.

A OUTRA

Ela não queria ver o óbvio e eu não sabia mais o que fazer pra lhe abrir os olhos. Ela fazia questão de enxergar o arco-íris como uma enxurrada de tons monocromáticos. Fazia questão de ignorar a leveza da luz que banha nossos corpos no ar.

Mesmo antes disso tudo, quando andávamos nos doces campos do lugar em que nascemos, ela não conseguia fruir da beleza das flores campestres. Tudo pra ela era um vão pronto pra nos tragar.

Ela desconfiava demais, até da semente que plantamos no campo e se desenvolvia a cada dia para nos alimentar.

Agora pouco estávamos ali, nós dois a sós, com a luz acima da gente, ninguém por perto pra nos incomodar. A água em volta dos nossos corpos nos refrescava e a brisa que vinha de cima anunciava que a chuva que se aproximava nos garantiria que água não iria faltar. A saída estava logo ali em cima, facultativa, e nós agraciados por nos encontrarmos no poço dos desejos.

Aquele era nosso suave refúgio, mas ela não queria isso enxergar.

ME ILUDINDO-LHE

- Você é tão centrado! Eu admiro tanto essa sua capacidade de saber sempre qual o caminho a seguir, mesmo nas situações mais difíceis...
- Eu sou assim? Desculpa, mas eu acho que você está enganado. Na verdade, estou sempre tão perdido e com medo...
- Não acredito que você se veja perdido e com medo! E essa segurança toda que você passa aos outros?
- Sei lá se passo essa sensação. Talvez seja apenas as pessoas se iludindo com a ilusão que eu criei para me manter com um mínimo de esperança e sanidade...

sábado, novembro 30, 2013

TRAVESSIA E ARES

Eu caminhava lentamente para frente e, às vezes, olhava pra trás para ter certeza de que a janela não havia se fechado e os olhos continuavam a me proteger com sua força invisível. Os passos eram duvidosos e parecia que, a qualquer momento, tudo poderia desabar. Não havia medida para o medo, que me parecia engolir num precipício sem fim.

Contudo, a coragem fez morada na minha alma, me deu combustível para as minhas pernas e eu segui em frente. Analisei o risco e fiz o que tinha que fazer: atravessei a rua. O chão era duro, a noite era fria, as pessoas passavam se esbarrando sem nem mesmo se importar.

Então era só questão de tempo até eu me acostumar a caminhar sozinho e começar a querer, quem sabe um dia, te tirar do outro lado da calçada.

quinta-feira, novembro 21, 2013

C. FAMILIARIS

E ela me imitava
nos pequenos detalhes.
E eu sempre sorria
pelas pequenas coisas.

E quando ela pulava em meu colo,
ou eu lhe chamava a atenção com vontade de sorrir,
eu sabia que havia ali nascido um amor.

domingo, novembro 17, 2013

FARTO

Era o fim de uma tarde.
O rato saiu à caça do gato.
Seguia pelo faro a trilha ao encontro.
Hoje era uma noite de revanche.

BK

Sentado pra sonhar.


Os pés forçam
a corrente forte
que me liberta.

O vento vindo
no rosto satisfeito.

Duas rodas
são, na verdade,
duas asas
para mim.

quinta-feira, novembro 14, 2013

SE JOGA

Fazia muito tempo em que ela pensava nessa ideia fixa e aquela noite era a ocasião perfeita para realizar seu intento. Não havia muito a perder e sinceramente ela já não aguentava mais fugir disso. Esta era a hora de transformar sua ideia em ação.

Era noite de sexta-feira e seus parentes viajavam. Ela estava sozinho em casa. Poderia sair sem ser notada. Seus amigos deveriam estar se aprontando para sair e se divertir. Provavelmente não encontraria ninguém durante a pequena caminhada que faria até seu destino.

Andava a passos apressados por ruas escuras daquela cidade, em busca do que queria. Conseguiu vê-lo de longe e foi atraída em sua direção por uma força irresistível.

Chegou ao viaduto mais antigo da cidade. Ele ficava sobre os trilhos do trem e permitia a passagem dos carros, dos ônibus e dos caminhões sem que houvesse congestionamento. Ela olhou lá para baixo e não teve dúvidas: pulou lá de cima num só movimento.

Sentia o ar bater violentamente contra sua pele. Mas ainda assim não sentiu medo. Apenas uma alegria crescente que foi tomando conta dela até que se sentiu suspensa no ar. Parecia que a gravidade havia cessado. Abriu os olhos, que agora não tinham que enfrentar a fúria da resistência do ar, e viu tudo mais iluminado que de costume. Estava no meio da altura da queda, pairando no ar.

Seu corpo não era mais pesado. Tudo era leve nele. Nada conseguia lhe prender ao chão. Ela estava livre, afinal! Por alguns segundos, aproveitou aquela nova sensação, de não ter peso em si, de sentir-se um com o ar.

Depois, percebeu que não conseguia movimentar nada além de seus braços, pernas e cabeça e, por mais que o fizesse, não sairia do lugar. Agora lhe cabia um castigo pior do que estar presa ao chão por seu próprio peso. Sua prisão era sua leveza, a sua liberdade.

sábado, setembro 21, 2013

FOTO SEM NEGATIVO

Eu sou seu fim-de-semana.
Seu oásis, seu respiro.

No nosso cativeiro,
um quarto conhecido,
é que a gente expande o mundo.

E eu faço teu sorriso,
outrora proibido,
hoje mimo límpido
de quem encontrou um bem.

O carinho dedicado,
que o tempo trás consigo,
me faz homem e menino,
nesses braços que repouso.

sábado, setembro 14, 2013

NÓ DE GRAVATA

Ele era um rapaz novo, mas com apenas 18 anos já tinha uma filha prestes a nascer. Precisava trabalhar para sustentar a sua nova família, mas não estava fácil ser contratado. Depois de muito procurar no jornal, conseguiu finalmente um emprego em que aceitavam o seu Ensino Médio a ser concluído daqui a 5 meses. Ele seria vendedor numa loja de ternos do shopping novo de sua cidade.

No começo tudo era curioso para ele, que estava até satisfeito com as novidades. Colegas de trabalho, dinâmica de trabalho, horários e até o uniforme. Todos os funcionários da loja, obviamente, trabalhavam de terno e usavam também uma gravata azul.

Ele, que nunca antes havia vestido um terno na vida, agora já sabia dar nó de gravata até no escuro do quarto em que dormia com a mãe de sua futura filha, para não acorda-la quando saía cedo para trabalhar. Havia ganho também uma significativa melhora em convencer as pessoas com seus argumentos, provavelmente por conta do treino diário em sua função de vendas. Também passou a errar menos quando presenteava alguém com alguma roupa, pois conseguia julgar com grande precisão o estilo e o tamanho exato que iria servir ao presenteado. Estava feliz com sua atual situação.

Contudo, o tempo passou e algumas coisas mudaram. A cada fim de expediente ele se sentia mais cansado e parecia que sua gravata azul apertava um pouco mais em seu pescoço. Aliás, a cada dia sentia que sua gravata ficava um pouco mais apertada. É claro que tudo aquilo deveria ser só uma impressão porque o ritmo de trabalho continuava o mesmo e, todos os dias pela manhã, o nó da gravata era refeito e ajustado confortavelmente ao pescoço dele para que ficasse confortável e bonita ao mesmo tempo.

Contudo, numa noite ao chegar em casa, não conseguiu retirar a gravata. O nó estava extremamente apertado. Quando mais força ele fazia para tirar a gravata, mais o nó apertava em seu pescoço. Começou a ficar sem ar e correu em direção à gaveta, procurando por algo para cortar a gravata. Procurou desesperadamente pela tesoura, mas ela não estava lá. Pensou em gritar por ajuda, mas não conseguia. De repente, sentiu sua visão escurecer. Caiu no chão, sem forçar e desfaleceu. Aquele nó o havia vencido.

terça-feira, maio 28, 2013

O AMOR DOS SINOS


Os sinos tocavam ao longe enquanto eu tocava o seu rosto para preparar-lhe para o beijo que haveria a seguir.

Eu, com os meus 57 anos, confesso que gostava de sentir sua pele macia de quem faria 19 daqui há uma semana, mas tinha um certo receio da malidicença alheia.

Tenho certeza que muita gente reprovaria o nosso amor. Iriam me chamar de canalha ou depravado. De você, duvidariam da sinceridade dos sentimentos.

Mas eu sabia que era tudo real. Eu sabia que era tudo amor. Eu sabia que havia pureza e nada mais. Porque os sinos sempre tocavam quando a gente se via, no meio da rua. Eu ouvia os sinos ao cruzar o meu olhar com o seu. E os sinos não haveriam de mentir e nem de enganar a quem quer que seja.

Você me fazia sentir tão jovem. E eu lhe dava tanta maturidade. Quando eu tinha suas coxas em minhas mãos, sabia que o prazer que eu tinha era o seu também. Afinal, os sinos, nesses momentos, soavam com uma fúria de quem detém a verdade.

E amor é isso! Fazer bem um ao outro. E ouvir os sinos, ainda que eles não toquem mais.