sábado, novembro 01, 2014

SUAVEMENTE

O sorriso dela era tão inocente... Era uma mulher, mas com jeito de menina. Eu a observava todos os dias indo fazer caminhadas na avenida do meu bairro. Era tão graciosa! Estava sempre alegre e jovial. Ouvia música em seu fone de ouvido e parecia estar numa paz de espírito que poucas pessoas conhecem.

Um dia, tomei coragem e me aproximei. Queria puxar assunto, ter o pequeno prazer de conversar com tal criatura angelical. Para a minha surpresa, ela não pareceu sentir qualquer incomodo com a minha aproximação. Ficou tão a vontade e foi tão receptiva que eu senti que entre nós já havia uma intimidade ímpar.

Naquele dia, eu a acompanhei até o portão de sua casa, como se fossemos dois adolescentes experimentando as possibilidades da conquista romântica. Ela girou a chave na fechadura delicadamente e pegou em minha mão com doçura. Suavemente, me puxou para dentro e fechou novamente o portão de forma que parceria haver carinho naquele movimento. Passou seus braços devagar pelo meu pescoço e me envolveu num abraço tão macio e terno, que eu fiquei imóvel, entregue àquela mulher. Então, ela aproximou sua boca da minha orelha, mordendo suavemente e arrancando-a de seu lugar. Suavemente, seus dentes arrancaram a carne do meu ombro direito e eu senti meu próprio sangue escorrer suavemente pelo meu corpo. Em êxtase, eu me sentia acolhido por suas unhas quando elas tiravam a pele das minhas costas, num afago inebriante. Suas mãos macias quebraram delicadamente os dedos da minha mão, enquanto ela mordia minhas coxas como quem morde um fruto de forma provocante e inocente ao mesmo tempo.

E foi assim que eu fiquei ali inerte, sorvendo do afeto que transbordava de cada gesto daquela mulher menina, enquanto virava a sua refeição.

sexta-feira, outubro 31, 2014

A CHUVA VIRÁ

Eu aprendi que, quando a gente não consegue chorar porque as lágrimas secaram de tanto que se chorou, esse pranto fica guardado e, um dia, ele precisará sair.

É como um monte de entulho no coração, amontoado num canto escondido de quem tenta ver por fora, mas tão evidente para quem convive com aquilo. O choro tem gosto de pó de brita, seco e áspero como se fosse uma lixa contra o metal.

A chuva pode cair no chão ressecado e, vinda de uma tormenta, transformar aquilo num lamaçal. O barro sujo e podre, então, pode transbordar em lágrimas cristalinas, trazendo um alívio feito de água e sal.

domingo, setembro 28, 2014

A MENTE INSANA

Dói.
Mas prendo a fera na jaula feita de cápsulas para CID-F.
O mundo está a salvo.
O ácido só atinge minha própria alma.
Agora o lado de fora pode voltar a agredir o peito
sem que o vulcão devaste quem está ao redor.

domingo, agosto 17, 2014

O MENINO DO BALDE AZUL

Ele estava na praia, com o seu baldezinho azul, construindo seu castelo de areia. Ele o fez com o máximo de detalhes que lhe foi possível fazer. Passou uma boa parte daquela manhã ensolarada na praia para erguer sua edificação em miniatura que atraia olhares admirados.

Olhou sua obra como um pai olha contente para o filho que acabou de nascer. Parecia não haver nenhuma imperfeição em sua criação, ao menos aos seus olhos! Aquilo lhe enchia de uma ternura e de uma sensação de alcançar um triunfo que ele nunca tivera ainda em sua curta vida!

Contudo, aos pouco, seus olhos foram ganhando um brilho diferente. A ternura que antes havia foi pouco a pouco sumindo. Seu rosto se encheu de uma excitação assustadora e ele parecia ter fogo em seu sorriso. Era como se experimentasse de um êxtase que lhe furtasse a sanidade e lhe fizesse provar um gosto agridoce de loucura.

Num movimento rápido, pegou seu baldezinho azul e destruiu seu castelinho de areia com toda a força que lhe havia. Reduziu a pó sua construção lúdica, espalhando cada grão de areia para um lado. Olhando o que acabara de fazer começou a sorrir e a chorar ao mesmo tempo, numa expressão indecifrável e amedrontadora.

sábado, agosto 09, 2014

APÓS

Como as desculpas após machucar alguém,
como a polícia nos filmes de suspense,
como o coelho no país das maravilhas,
como a noiva no dia do casamento,
como as águas que só caíram em abril.

Isso que você fez, julgando atar a hemorragia
chegou tão tarde e já não adianta mais.

sábado, julho 19, 2014

PROFÉTICO

Naquele tempo, Ele desceu do alto de onde estava e disse à multidão:
"Olhai os desertos, sua vastidão e sua secura. Assim são as pessoas do nosso mundo." (Si 6:66)

CASTIGO E CRIME

Aquela moça sempre se permitia viver o que ela era de verdade. Não era uma fantasia para fazer o carnaval dos olhos dos outros: era sempre a verdade crua de uma segunda-feira de manhã, num ônibus lotado de quem vai ao trabalho.

E isso assustava demais a todos, que se afastavam, porque ninguém queria a aspereza da verdade. O veludo da hipocrisia sempre foi mais sedutor. Contudo, nascia um homem, que vinte anos depois, olharia nos olhos daquela jovem senhora de 37 e ficaria ali perdido.

Ele gostava de apanhar. E não há nada que machuque mais do que uma grande dose de verdade. E a moça, agora já não tão jovem quanto outrora, queria mesmo era espancar e triturar com sua sutileza. Este seria o encontro perfeito e duraria para sempre, se não fosse por um detalhe: eles não estavam numa ilha.

Todos ao redor se escandalizaram. Todos queriam por fim ao tormento de ter que tolerar a pavorosa situação. Colocaram fogo na casa onde eles se encontravam. A morte seria certa para os dois, se não fosse por outro detalhe: não se pode ter a presunção de ter tudo sob controle.

Ela havia deixado o jovem amarrado na cama, com venda nos olhos e foi ao carro buscar um de seus apetrechos: seu chicote de sinceridade. Na volta, as chamas não deixavam que ela conseguisse entrar novamente em casa.

Seria o crime perfeito, se não fosse um detalhe: a verdade, quando está furiosa, não deixa nada de pé. E assim foram aqueles dias...

LÁ DENTRO

Eu, perdido no espaço,
sem espaço em mim,
me sufoco sem dar espaço
ao que transborda por não ter fim.

domingo, junho 29, 2014

DO PARAÍSO AO CHÃO

Dizia o poeta assim:
"Todos juntos, somos fortes".
Nisso eu quis crer.

E, de repente, estamos todos nós
no vão do grande precipício,
sentindo nossos corpos caírem
e não há mais ninguém pra dar a mão.

Não sei se chamo isto
de companheirismo solitário
ou digo que é uma
compartilhada solidão.

segunda-feira, junho 16, 2014

SEM MENINO NO ESPELHO

E foi assim que percebi
que a dor diminuiu,
mas que, talvez, ela
nunca mais vá embora
totalmente.

Como se eu tentasse
fazer um espelho quebrado
ficar inteiro outra vez.

PÓS-MODERNIDADES

Poetas em 140 caracteres vivem a dor e o prazer na velocidade da luz num tempo no qual as trevas insistem em se impor.


E eu desaprendi a ler livros de papel.

quarta-feira, maio 07, 2014

(DE)CRESCENTE

Ah!
Atriz?
A triste!
A tristeza...
Atriz tesa vai.
A tristeza vaia.
Atriz tesa vaiava.
A tristeza vaiava: ô!
Atriz tesa vaiava o ex.
Atriz tesa vaiava o ex Pê.
A tristeza vaiava o espelho.
Atriz tesa vaiava o espelho: Fim!

segunda-feira, abril 21, 2014

PROCURANDO A CONEXÃO

_____________Por-que___________________
__________eu-insisto-em-ser______________
____alguém-que-me-trava-as-pernas_________
__quando-eu-preciso-seguir-em-frente?_______
_(_____________???...???________________)_