
O senhor gordo na porta do salão estava sorrindo sozinho. Eu o conhecia de outros tempos. Ele
até me confessou, certa vez, que gostava de ficar sozinho. Falou-me, cheio de dedos mas tentando disfarçar o seu receio, que ficar só lhe fazia muito bem, às vezes...
Contou-me que havia dias em que ele mesmo chegou a inventar compromissos para sair de casa e foi-se sentar só por horas no banco de uma pracinha em um bairro afastado. Disse-me, também, que ultimamente intencionava escapar do mundo que o cercava, por uns tempos, tomando um ônibus sem destino certo ou algo do tipo. Pude perceber que ele só revelou-me tudo isso após certificar-se de que eu não demonstrava nenhum ar de reprovação ao ouvi-lo afirmando o gosto por momentos de isolamento.
Aquelas risadas solitárias na porta do salão fizeram-me sentir feliz pelo senhor que, sozinho, descobriu como ser feliz consigo mesmo.